08/10/2021

A importância da polinização para a humanidade

Em tempos antigos, os indígenas usavam seu conhecimento mais primitivo, sua ligação intrínseca com a natureza, quando queriam colher mel na mata. O xamã, uma espécie de sacerdote da aldeia, embrenhava-se na mata à noite e se conectava com o barulho que as abelhas fazem num enxame. O mel colhido era envolto numa folha de bananeira, e ele sempre deixava uma parte para os espíritos da floresta.

Essa história foi contada pela pesquisadora da USP Vera Lucia Imperatriz Fonseca durante sua apresentação no webinar “Polinizadores da Amazônia” que aconteceu dia 30 de setembro para funcionários e cientista parceiros do ITV DS. Vera Fonseca ilustrou assim sua palestra “Abelhas e o bem-estar humano”, no webinar,  focando na importância do conhecimento que hoje se tem desses polinizadores:

“O ITV trabalha muito nesse conhecimento. As transformações que vão acontecer nessa década, e que vão nos ajudar a chegar à natureza de outra maneira, vão precisar de dados muito confiáveis, e é isto que o ITV fornece”, disse ela.

E qual o trabalho que o ITV DS faz com as abelhas, bichos tão fundamentais para a sobrevivência das pessoas e da biodiversidade no planeta? Quem responde é a pesquisadora do Instituto, Tereza Cristina Giannini:

“Existem várias iniciativas diferentes. Uma linha do nosso trabalho no ITV consiste em estudar as interações entre abelhas e plantas, entender o papel dos polinizadores na natureza e sua biodiversidade e compreender isso tudo pode ser potencialmente afetado pelas mudanças climáticas”, explica ela.

O trabalho, que é feito na região de Carajás, tem mais três focos. Um deles é pesquisar como essas interações podem ajudar os projetos de recuperação de áreas degradadas com a mineração. Há ainda uma outra pesquisa sobre a questão de conectividade de paisagem, já que Carajás está isolada de outras áreas protegidas, pois restaurar ambientes naturais e aumentar a conectividade são ações cruciais para ajudar as espécies a enfrentarem as mudanças de clima.

Outro foco é a questão da polinização para produção dos alimentos, uma linha de pesquisa importante que ajuda a entender a dependência da produção agrícola  por polinizadores.

“Para isso temos analisado as culturas produzidas no estado do Pará, e estamos trabalhando junto com o Fundo Vale em iniciativas de sistemas agroflorestais, principalmente baseados em cacau”, explica a pesquisadora.

Este projeto possibilita a geração de negócios socioambientais, de renda para as comunidades locais. Além disso, temos também a iniciativa de uma biofábrica de abelhas nativas sem ferrão, que visa a multiplicar as colônias dessas espécies e doa-las as comunidades do entorno de Carajás.

Dessa forma, esses estudos contemplam o papel da polinização em relação à floresta em pé e ao bem estar humano, exigências da atualidade, segundo Vera Fonseca.

“Somente se o sistema ecológico andar junto com o sistema social será possível a manutenção da humanidade no planeta”, lembra ela.

De olho na parceria

Não é preciso procurar muito para se achar bons exemplos de que dá certo quando o ser humano e a natureza convivem de maneira respeitosa.  A agricultora Rosenir Ferreira de Souza, atualmente tesoureira da associação Filhas do Mel da Amazônia, comemora o fato de ter zerado o estoque de mel no ano passado. Por conta da pandemia, segundo ela, muita gente passou a querer se alimentar com produtos naturais, mais saudáveis.

A Filhas do Mel existe há sete anos, mas por enquanto as associadas comercializam individualmente. Rosenir acha importante a pesquisa realizada no ITV DS e as possíveis parcerias:

“Os cientistas podem nos ensinar o melhoramento genético e nos ajudar a destacar a importância da meliponinicultura para a agricultura familiar. Eles podem auxiliar na identificação dos tipos de plantas que dão própolis, porque também é um ótimo produto para se comercializar. Precisamos também construir uma Casa de Mel para fazermos a certificação”, disse ela.

Um dos poucos institutos que trabalham com abelhas visando ao desenvolvimento das comunidades no Pará é o Peabiru. João Meirelles, diretor-geral da entidade, também foi convidado para falar no webinar “Polinizadores da Amazônia”. Meirelles ratifica a necessidade de se pensar no bem-estar das pessoas para garantir o respeito à natureza.

“O que fazemos no Peabiru é uma coisa só: o fortalecimento da capacidade das comunidades. As pessoas aprendem várias coisas, inclusive a se relacionar. Tem um caso de uma mulher que disse que, depois que começou a produzir o mel, ela tem o que conversar com o seu marido. Tem outro caso, da criança de 4 anos que disse para a mãe que quer deixar uma caixinha de abelhas para quando a irmãzinha dela crescer. Isso, para mim, é resultado”, disse ele.

João Meirelles se sente fazendo trabalho de formiguinha para ajudar as comunidades. E percebe que, neste sentido, há uma diferença com o ITV DS que, para ele, “está fazendo um trabalho de alta ciência”.  Há, porém, um vasto campo para parcerias para alavancar o estudo das abelhas.

“Somos poucos, da sociedade civil, que buscamos investir, por exemplo, em tirar o código de barras das abelhas. Precisamos muito da ciência porque é um assunto muito novo”, disse ele.

 

Tereza Cristina Giannini, pesquisadora do ITV DS:

“Grande parte da produção de alimentos depende da polinização”

De que maneira os estudos científicos do ITV DS estão colaborando para a polinização em Carajás?

Tereza Giannini – Temos várias iniciativas diferentes. Uma linha de nosso trabalho é estudar as interações abelha/planta, para entender o papel dos polinizadores em relação à flora. E entender como é que essas interações podem ser potencialmente afetadas pelas mudanças climáticas. A outra linha é tentar saber como essas interações podem ajudar os projetos de recuperação de áreas degradadas com a mineração. Estudamos ainda como as abelhas, no Brasil, ajudam na produção de alimentos. Uma quarta linha é a questão de conectividade de paisagem, porque Carajás está isolada de outras áreas protegidas e estamos desenhando possibilidades e ideias para conectá-la com outras áreas.

Por que é importante fazer esses estudos sobre as abelhas?

Tereza Giannini – A maioria das plantas que produzem flores depende de abelhas para esse serviço de polinização. Ou seja: sem polinização não existe formação nem de frutos, nem de sementes. O sucesso reprodutivo de muitas plantas depende de polinizadores, e em grande parte depende de abelhas. Então, se pensarmos em termos de qualidade nutricional, da alimentação humana, grande parte da produção de alimentos depende da polinização. Mas é importante lembrar que a polinização também pode depender de outros animais – como outros insetos, aves e morcegos.

Qual a contribuição do trabalho científico no ITV DS com relação à perda de biodiversidade?

Tereza Giannini – Dentro do ITV DS, o que estamos analisando é o dado de interação entre animais e plantas, que é um dado muito raro.  Geralmente existe listas de espécies que ocorrem nos locais, mas não existem dados de quem interage com quem. Então, primeiro organizamos uma lista de espécies de abelhas para Carajás, que também não existia (foi publicada pela primeira vez em 2021) e, além disso, estamos coletando dados em campo. O interesse é descobrir quais abelhas visitam quais espécies de plantas para que possamos fazer redes de interação. Essa é uma contribuição. Outra contribuição é tentar entender qual, potencialmente, será o impacto  das mudanças do clima e quais são as áreas prioritárias para tentar garantir que as espécies tenham áreas protegidas, coincidentes com locais onde o clima vai ser adequado para elas. A terceira contribuição é entender o papel das abelhas polinizadoras em estratégias de recuperação de áreas degradadas e quais plantas poderiam ser prioritárias para os projetos de recuperação visando não só a recuperar a vegetação das áreas, mas também a recuperar as interações.

Como lidar com o triste cenário traçado pelos cientistas do IPCC, que prevê mais eventos extremos no futuro?

Tereza Giannini – Qualquer atividade ou iniciativa que visa a conservação, restauração ou proteção das espécies precisa estar baseada em conhecimento. Então, em primeiro lugar, é preciso entender a biodiversidade das áreas naturais. Em segundo lugar, entender como é que  pode ser ameaçada pelas mudanças globais para desenhar propostas eficientes de soluções.

 

João Meirelles, diretor do Instituto Peabiru:

“O ITV pode nos ajudar com o monitoramento científico”

 

Qual o trabalho do Instituto Peabiru com as abelhas?

João Meirelles – Desenvolvemos tecnologias bem simples para trabalharmos a questão da produção do mel com as comunidades tradicionais. Na verdade, o que fazemos é o desenvolvimento tecnológico no campo, somos implementadores. Nessa região do Pará – trabalhamos no nordeste do Pará, na região litorânea, de Palma – somos um dos poucos que trabalham com abelhas.

Como se percebe a importância desse trabalho para as comunidades?

João Meirelles – Há um fortalecimento das comunidades. As pessoas aprendem muito, inclusive de relações sociais. Já ouvi, de uma mulher que passou a ser produtora, que agora tem o que conversar com o marido. Já ouvi também uma criança de 4 anos dizendo para a mãe que quer guardar uma caixinha de abelha para seu irmão. Isso, para mim, é resultado. Ao conversarem sobre abelhas as pessoas estão se associando, pensando coletivamente. A abelha é uma educadora ambiental. É claro que a renda também é importante: tem um artigo fantástico que mostra que 80% da renda do cacau e do açaí vêm da polinização. E nós não pagamos a polinização.

Como seria uma parceria com o ITV DS?

João Meirelles – Eu digo que o ITV faz um trabalho de alta ciência, enquanto nós fazemos um trabalho de formiguinha, no campo. Então, os pesquisadores podem nos ajudar com o monitoramento científico porque o ITV pode verificar se as abelhas estão saudáveis, e essa parte não temos quem faça. O nosso inventor, por exemplo, inventou um lugar da caixa onde tira mel e em vez de tirar um quilo, tira seis quilos. Com a ajuda do ITV podemos pensar nisso cientificamente. Além disso, implementar modelos que possam dar escala, pois só podemos trabalhar com trinta famílias.

De quantas abelhas estamos falando?

João Meirelles – Existem duas mil espécies de abelhas sem ferrão no mundo, e o Brasil tem cerca de 300, sendo que a maior parte fica na Amazônia e no Pará. Só para se ter uma ideia: um pasto degradado não tem abelha; uma floresta super preservada tem trinta a cinquenta espécies e uma floresta meio preservada tem apenas quatro ou cinco espécies. Investir em abelhas para recomposição de solo aumenta as chances de dar certo. A ONU escolheu a abelha como o bicho mais importante do planeta, não foi à toa.