09/09/2021

Conhecer para preservar

Desde 2014, o ITV DS realiza o monitoramento da Bacia do Rio Itacaiúnas com o objetivo de entender melhor o comportamento hidrometeorológico dessa região. São informações que poderão ajudar os tomadores de decisão a planejarem melhor o uso do solo e o manejo da Bacia, como a prevenção de impacto de eventos extremos nas comunidades.

No webinário “Águas de Carajás”, que aconteceu dia 25 de agosto, o tema foi debatido pelo pesquisador do ITV DS Paulo Pontes; por Mauro Rodrigues, do Serviço Geológico do Brasil; e por Igor Ribeiro, da Associação dos Engenheiros Ambientais do Sul e Sudeste do Pará (AEASSPA) para uma audiência composta por empregados da Vale e parceiros científicos.

O conjunto de pesquisas coordenado pelos pesquisadores do ITV DS faz parte do projeto de Monitoramento de Eventos hídricos e Suporte à Gestão e Planejamento. Para colher os dados, os profissionais que fazem parte do projeto tanto vão a campo quanto trabalham remotamente, por modelos matemáticos, produzindo conhecimento com o objetivo de analisar e estudar a ação dos ventos, das chuvas, da temperatura, da umidade do solo, entre outros eventos. Foram construídas também estações meteorológicas e de medição do nível de vazão dos rios.  São dados que ajudam a antecipar o que ainda está por vir.

“O balanço hídrico é o estudo que estima o quanto da chuva que cai fica retida no solo, o quanto volta para a atmosfera e o quanto sai pela foz do rio. E isso varia muito, há muitas influências”, comenta o pesquisador Paulo Rógenes Monteiro Pontes, coordenador da pesquisa.

O objetivo final do estudo é gerar conhecimento, comenta a pesquisadora do ITV DS Rosane Barbosa Lopes Cavalcante.

“Os dados gerados nesse projeto apoiam o planejamento e as ações na gestão da água do território onde estamos atuando”.

 

ENTREVISTA – Paulo Rógenes Monteiro Pontes

“A cada ano, novos cenários”

 

Quais os resultados que já podem ser listados do Projeto que você está coordenando?

Paulo Pontes – Temos novos resultados a cada ano. Já analisamos o papel de áreas de preservação – na Bacia há terras indígenas e Unidades de Conservação – e de como essas áreas impactam os recursos hídricos. Trabalhamos com o monitoramento, o sensoriamento remoto, a modelagem matemática, visando a diagnosticar e fazer prognósticos, tentar fazer cenários hipotéticos de avaliação relacionados a recursos hídricos. Criamos três cenários, um deles bem hipotético, onde não existiria nenhuma proteção. E percebemos que o desmatamento causa, de fato, aumento de vazões mínimas do rio.

O que é o aumento das vazões?

Paulo Pontes – É o aumento do volume de água que passa pelos rios. Pode-se achar que é um bom cenário, porque significa mais água na Bacia, mas não necessariamente. Com o desmatamento você expõe mais a paisagem, o solo, o que facilita processos de erosão e pode impactar aspectos qualitativos da água.

O que é balanço hídrico?

Paulo Pontes – Chamamos de balanço hídrico ao estudo que estima o quanto da chuva que cai fica retida no solo, o quanto volta para a atmosfera e o quanto sai pela foz do rio. E isso varia muito, há  essa relação entre captação da chuva pelo solo, pela floresta, e o quanto dessa chuva escoa pela superfície. E isso varia muito, vai influenciar a quantidade e a qualidade de água no solo. Esse processo hidrológico, que recebe os impactos das atividades antrópicas, faz da Bacia um ser vivo, que se comporta com uma dinâmica, com uma variabilidade. Apesar de estarmos na Amazônia e termos, por isso, uma ideia de abundância de água, temos uma sazonalidade muito forte. Temos inundações no período mais úmido. Ao mesmo tempo, há ocasiões em que o rio praticamente seca, o que pode causar desafios com relação à segurança hídrica.

Como você avalia os evento extremos?

Paulo Pontes – Verificamos, por exemplo, como o aumento de água nos rios impacta ou inunda cidades que estão na beira desses rios. Dessa forma, conseguimos mapear essas áreas de inundação. Conhecendo essas áreas, os tomadores de decisão – as prefeituras, por exemplo – podem se antecipar a esses processos e fazer algum plano de evacuação. Ou seja: permite uma espécie de zoneamento, um plano de manejo em relação à inundação da cidade.

 

ENTREVISTA – Rosane Barbosa Lopes Cavalcante

 “É como se a Bacia tivesse uma memória”

 

Como o balanço hídrico da Bacia do Rio Itacaiúnas vem se alterando?

Rosane Cavalcante – Realizamos um estudo e descobrimos que desde os anos 70 não houve alteração significativa de precipitação, mas um ligeiro aumento de temperatura local. A vazão do rio teve um grande aumento nas médias, máximas e mínimas, uma variação considerável. Isto aconteceu por causa do desmatamento na região. Buscamos verificar a influência da temperatura das águas do Atlântico e do Pacífico na Bacia. E ficou claro que quando tem El Niño (aquecimento no Pacífico) e La Niña (diminuição da temperatura no Pacífico) temos secas e inundações mais fortes na Bacia. Outra descoberta interessante: é como se a Bacia tivesse uma memória.

Como assim?

Rosane Cavalcante – Quando chove muito, o solo fica cheio de água e ele funciona como uma esponja e a água sai do solo lentamente, fica na memória da Bacia. Com isso, mesmo chuvas moderadas podem gerar altas vazões na bacia.  Ocorre o contrário com eventos de seca severa: há uma grande redução da água armazenada no solo e rochas e, com isso, mesmo quando volta a ter chuvas normais, demora alguns meses para que as vazões voltem a normalidade.

Na verdade, com esses dados o ITV DS está gerando conhecimento…

Rosane Cavalcante – Sim, hoje mesmo eu estava pensando na importância disso como um todo. As informações que geramos agora podem ser utilizadas também daqui a alguns anos, o que pode ajudar a resolver um problema lá na frente. Estamos gerando pesquisa, informação base que vai ficar disponível para a sociedade. Por isso a importância de divulgarmos, cada vez mais amplamente.

Qual a utilidade prática desse estudo?

Rosane Cavalcante – Já temos os modelos que conseguem prever chuva em diferentes períodos de tempo. Juntando isto à informação sobre o armazenamento da água no solo teremos melhores  condições de prever as enchentes e inundações.

 

ENTREVISTA Igor Conceição Ribeiro

“Valorizar a área onde vivemos”

 

Como morador da região e engenheiro ambiental, o que significa, para você, o Projeto de Recursos Hídricos do ITV DS para a Bacia do Itacaiúnas?

Igor Ribeiro – Uma forma de embasar órgãos ambientais e outros estudiosos do tema a tomarem decisões, a fazerem avaliações e levantar um diagnóstico da situação da qualidade das águas do Rio.

De que maneira esses estudos podem contribuir?

Igor Ribeiro – Incentivando a aplicação de estratégias de preservação. Por exemplo, com a criação do Comitê de Bacias Hidrográficas, criação de grupos específicos para intermediação. Estimulou também a criação de estações de monitoramento que podem fazer previsões mais precisas. É possível prever como queremos que nosso rio esteja daqui a um, dois, três anos, tendo em vista tanto o crescimento populacional como das atividades que impactam sobre ele.

Seria importante ter um plano estratégico?

Igor Ribeiro – Sim. Com os estudos do ITV DS e com os cuidados da população e dos governos será possível valorizar a área onde vivemos.