30/08/22

A Meteorologia é uma ciência que precisa de dados confiáveis para reduzir incertezas. A resposta que as pessoas esperam para a pergunta do nosso título  é  “sim” ou “não”. Mas o correto é… “depende”.

Hoje, porém, já há possibilidade de mais acertos do que dúvidas. Dados científicos mais disponibilizados e o avanço do sistema computacional global são divisores de águas para a Meteorologia.   

Neste sentido, foi possível ao Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável criar um sistema de previsão meteorológica sob medida para a Vale, e com análises que têm foco para a mineração, levando em conta, por exemplo, a radiação do sol, características regionais do relevo, a hidrografia, o uso da terra. Trata-se de um estudo que busca reduzir as incertezas da Meteorologia.

 São dados que oferecem às equipes que estão trabalhando em campo a previsão mais fiel possível, de curto prazo,  sobre a incidência de chuva nas regiões onde a Vale atua.

Porto de Ponta da Madeira (PDM) foi o primeiro local a ter acesso ao dashboard gerado pelo ITV DS que fornece esta previsão de chuva, de hora em hora. Hoje, a consulta a esta ferramenta logo cedo pela manhã, já é uma rotina para os trabalhadores de PDM.

“É raro, mas se acontecer algum problema técnico, como por exemplo falha na internet, e atrasarmos o  dashboard, o pessoal liga para saber o que houve. Porque faz falta para eles. Isto é muito bom, saber que nosso trabalho está sendo importante”, disse o meteorologista Douglas Silva Ferreira, pesquisador do ITV DS, doutor em Ciências Ambientais.

É com o auxílio das informações enviadas pela equipe do ITV DS que o analista técnico Leandro Barreto e seu time, do Controle de Qualidade no Ponta da Madeira (PDM), tomam importantes decisões no processo de operação de embarque.

“Dependendo da previsão de chuva, nós vamos colocar os navios adequados na fila do Porto. O dashboard gerado pela equipe do ITV DS é fundamental para tomarmos esta decisão, ele nos dá uma previsibilidade que antes não tínhamos”, contra Leandro.

A primeira versão do dashboard do ITV DS foi criado em 2020, apenas para o PDM.  Mas hoje já há várias regiões da Vale que são focadas no dashboard.  A previsão tem também a quantidade de chuva esperada. Este estudo detalhado foi feito de acordo com as expectativas das equipes da Vale que trabalham com as informações fornecidas pelos cientistas.

“Pode-se dividir a meteorologia em escalas, tanto no tempo como no espaço. Existe uma atuação macro, médio, micro ou local. A mineração é muito do micro, é muito da escala da mina, do pátio, do Porto. E para se chegar a esta escala micro, é preciso modelar. Então, hoje, a Meteorologia no ITV DS tem foco em modelar uma condição local, baseado nos depoimentos dos empregados com quem conversamos antes de fazer rodar o modelo de previsão”, explicou Douglas.

Canaã dos Carajás, Pará (PA), Brasil – Vista geral da vegetação da Serra Sul de Carajás. Foto: Paulo Moreira / MMAS / Agência Vale.

Entrevista/Leandro Barreto

Qual a importância de uma previsão meteorológica para o trabalho no Porta da Madeira?

Leandro Barreto – Aqui no Sistema Norte temos um período chuvoso – não é nem verão, nem inverno, é só período chuvoso mesmo – que se estende, basicamente, por seis meses. O minério de ferro tem como característica reter água, ele já sai com umidade da mina. Quando chove, sua umidade aumenta até chegar ao Porto. Com isto, temos um problema na operação do embarque.

Qual é este problema?

Leandro Barreto – Existe um item de controle de segurança da carga do navio chamado Teste de Umidade Transportável (TML na sigla em inglês) que, em resumo, é o teor máximo de umidade para que uma carga seja considerada segura no transporte em navios, segundo a a International Maritime Organization (IMO), agência especializada da ONU responsável pela segurança da navegação. Quando o material que vai ser transportado tem o TML fica acima do que é possível, e se ele estiver dentro do navio, pode fazer com que o navio naufrague.  É aí que entra a importância do Boletim Meteorológico. Se eu tenho previsão de chuva, eu posso me precaver para este período e colocar os navios adequados na fila de navios.

Como assim, navios adequados?

Leandro Barreto – A Vale tem uma classe de navios especiais: o Vale Max e o G2. Eles têm uma capacidade de transportar o material úmido, acima do TML. Quando eu sei que vai chover, posiciono um desses navios e destino para ele o material úmido. O boletim meteorológico me dá, assim, uma previsibilidade que antes eu não tinha, específica para o PDM. Além disso, se carrego um navio menor com carga úmida, em alguns casos ele reduz sua capacidade de 60 a 70 mil toneladas. É um volume considerável que se paga de frete para transportar menos para a carga ser segura.

Basicamente, então, o boletim especial que o ITV DS envia, vai nortear sua escolha do melhor navio para transportar o minério, é isto?

Leandro Barreto – Sim. Quando a escolha do navio é correta, ou seja, se eu sei que vai chover e atraco o navio G2, que é preparado para carregar esse minério mais úmido, eu consigo ter duas coisas: vazão melhor do embarque – para não ficar muito tempo parado – e maior segurança da carga do navio. Temos trinta navios G2, e eles levam cerca de três meses no mar. Por isto também é importante o boletim meteorológico. Como temos aqui um parque limitado, nem sempre vou poder ter muitos navios esperando para atracar. Portanto, sabendo em que condições vamos operar, em resumo,  consigo tomar as decisões certas.

Entrevista/Douglas Silva Ferreira

O que é a Meteorologia?

Douglas Silva Ferreira – É uma Ciência natural que estuda a atmosfera na camada mais próxima da superfície, que é onde tudo acontece. Esta camada é quase um lacre que protege a Terra de tudo que vem do espaço. Mas o que acontece nela, que interessa a todos nós, está bem próximo, numa camada a 20 quilômetros de altura. A Meteorologia tem fama de que trabalha apenas com previsão de tempo, mas é muito mais do que isto. Por  exemplo, nós vamos falar aqui sobre um estudo aplicado de  Meteorologia para investigação de acidentes aeronáuticos, atuação em licenciamento ambiental, indústria de energia, agricultura etc.

O que difere a Meteorologia que faz previsões para a imprensa, desta Meteorologia da cadeia mineral?

Douglas Silva Ferreira – A Meteorologia que emite boletins para a imprensa faz uma previsão de maneira genérica, roda no computador um modelo concebido para ser aplicado em regiões de latitudes médias (ou temperadas). Este modelo, portanto,  pode não funcionar aqui. A cadeia mineral acontece  no Norte do Brasil, que é uma região tropical, tem uma geografia diferente, tem área de pastagem, cidades crescendo em volta, relevos acentuados, áreas florestadas. São nuances que precisam ser levadas em conta. O que fizemos foi pegar este modelo que já existia e adequar a Física dele para a mineração – leia-se radiação, características regionais de relevo, hidrografia e uso da terra, que o modelo genérico não consideraria.

Como foi feito o estudo da equipe de Meteorologia do ITV DS?

Douglas Silva Ferreira –  Nosso modus operandi é assim: os pesquisadores que atuam em diversas escalas (curto, médio e longo prazo),  ao final, geram um resultado condensado para a cadeia mineral, o dashboard. Fomos a campo, ouvimos várias pessoas para moldar este produto e dar o resultado que a Vale precisava. A Meteorologia se divide em escalas, tanto no tempo como no espaço: macro, meso (regional) e micro escala (local) no espaço e curto, médio e longo prazo (no tempo). A mineração ocorre na meso e microescala,  e para se chegar a esta escala é preciso modelar. O modelo que o ITV adotou para a previsão meteorológica da Vale é sob medida, é datado.  Hoje não existe mais a meteorologia no ITV como grupo autônomo, trabalhamos como uma linha de pesquisa dentro do grupo de Tecnologia Ambiental. O dashboard foi concebido em 2020, mas desde 2016 já mandávamos um boletim meteorológico em PDF para cerca de 500 pessoas da Vale. A empresa demandou algo mais específico e daí se criou o dashboard.

As mudanças climáticas interferem neste estudo?

Douglas Silva Ferreira – Uma coisa é o tempo, outra coisa é o clima. A mudança climática não vai mudar a previsão de tempo, a não ser que eu analise isto a longo prazo,  se nos últimos trinta anos, por exemplo, constatamos que vem chovendo menos num determinado local.  O que vai importar para a Vale é se, nas regiões onde ela atua, terá uma precipitação média em determinado período de tempo, em uma estação específica. Ou seja, o que importa são as características da precipitação: duração, intensidade, trajetória do sistema atmosférico (pensando em uma escala local e de curto prazo), mas também se deve chover acima ou abaixo da média, quando analisamos o médio e o longo prazo.