17/02/22

Um besouro milimétrico, quase do tamanho de uma cabeça de alfinete (1,0mm), da família dos subaquáticos, foi o responsável pela interrupção, por quase quatro anos, da operação da Mina N4WS, do Complexo de Carajás. O caso foi resolvido em 2020, com a atuação de duas equipes: o Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável e o setor de Espeleologia da Cadeia de Valor Ferrosos da Vale. Depois de vários estudos, foi provado para os órgãos de licenciamento ambiental que o besourinho Dytiscidae não era restrito àquela cavidade, ou seja, a espécie dele não estaria ameaçada com a supressão da caverna.

No período em que a produção da Mina precisou ser interrompida, o Dytiscidae ficou famoso entre os funcionários da Vale. Iuri Brandi, gerente do setor de Espeleologia da Vale, lembra-se do dia em que ouviu um operador de caminhão alertar seus companheiros em alto e bom som:

“Não pode ir por aí não! Aí tem Dytiscidae!”

O caso é emblemático, mas não é o único. Iuri  lembra que o ITV DS ajudou também a demonstrar que uma outra espécie, encontrada numa caverna do complexo S11D, não era um troglóbio – nome que se dá aos seres que vivem exclusivamente em cavernas.

Chamados de coleópteros aquáticos de Carajás, os besourinhos têm sido foco de atenção, e não é para menos. O compromisso da Vale é com a menor interferência nos recursos naturais, o que inclui a conservação de áreas importantes para a biodiversidade, o que justifica a série de projetos que vem sendo desenvolvida pelos profissionais do ITV DS, em parceria com a Espeleologia da Vale para conhecer e descrever as cavidades que vão ser impactadas direta ou indiretamente pela mineração, assim como a biodiversidade existente nelas.

“Criou-se esse caldo, esse conjunto de projetos que vem acontecendo há cerca de sete anos”, explica Leonardo Trevelin, especialista em fauna de cavidades e pesquisador do ITV DS.

As cavernas de Carajás têm uma formação geológica diferente: enquanto as outras são de calcário, lá a formação é ferrífera, o que determina a biodiversidade da região. O biólogo e geneticista Santelmo Vasconcelos, também pesquisador do ITV DS, é parte da equipe que coleta os dados sobre a presença de bichos raros. O objetivo é saber o que cada bicho faz na caverna e se é possível garantir que a diversidade será mantida a médio e longo prazo para que não haja extinção de espécies relacionada às atividades humanas.

“A diversidade genética de qualquer espécie tem que ser assegurada a longo prazo”, disse ele.

O cuidado faz sentido não só para ajudar a empresa Vale a assumir seu compromisso com a conservação da biodiversidade, como para cumprir a legislação ambiental. Foi com a Constituição promulgada em 1988 que as cavernas passaram a ser consideradas bem da União e a partir de 1995 passaram a ter uma legislação própria. Á época, quatro anos antes da Conferência Mundial Rio-92, os ambientalistas foram taxativos e proibiram qualquer supressão de cavernas.

Em 2008, porém, surgiu um primeiro decreto que flexibilizou um pouco mais, classificando as cavernas em graus diferentes de importância para a biodiversidade. Com o decreto 6640, de 2008, as cavernas classificadas em grau máximo deveriam ser preservadas. Este ano, mais um decreto deu nova dinâmica à questão das cavernas. Xavier Prous, biólogo, pesquisador e colaborador do setor de Espeleologia da Vale, lembra que ainda há muito a ser desvendado:

“O decreto traz mudanças com relação às cavidades de máxima relevância. Fato é que para se compensar o impacto será preciso conhecer muito bem a riqueza de cada caverna, especialmente porque espécies não podem ser extintas”, disse ele.

Para compreender melhor essa nova legislação é cada vez mais importante a parceria entre ITV DS e o setor de Espeleologia. Para Iuri Brandi, trata-se, sobretudo, de uma parceria que tem a vantagem de gerar conhecimento a partir da execução das compensações. É o que ele chama de ganho intangível para a sociedade.

“Desde o decreto de 2008, que permitiu a supressão com restrições, o número de cavernas conhecidas no Brasil saltou de quatro mil para 20 mil. E o Brasil tem vocação para ter 200 mil. Acredito que, com a ajuda do ITV, que vem criando banco de dados biomoleculares, pesquisando os detalhes em termos de troglóbios e moleculares, vamos conseguir aprimorar muito nossos estudos espeleológicos”, disse Brandi.

Entrevista/Iuri Brandi, gerente da área de Espeleologia e tecnologia de ferrosos da Vale

Como funciona a parceria entre o setor de Espeleologia da Vale e o ITV DS na questão das cavernas?

Iuri Brandi – Nós (da Espeleologia) temos desafios de conhecimento que implicam em evolução no tema da biologia subterrânea que requerem pesquisas mais apuradas para se achar soluções para executar a mineração sustentável. O ITV DS nos ajuda muito nesse sentido: em parceria, nós achamos os caminhos mais favoráveis para obter respostas, soluções para a empresa sobre um determinado projeto de mineração que implica no conhecimento de espécies que estão no subterrâneo. O ITV DS também faz a interface com fundações, com a academia, e isso vai se desdobrando: pesquisas de modelagem, de germoplasma, banco de biomolecular, pesquisas sobre morcegos. Ao longo dos anos temos conseguido traçar estratégias e planos de ação para ter respostas para a mineração evoluir sustentável em áreas que apresentam desafios, principalmente nas cavernas no entorno das minas.

De que tipo de desafios estamos falando?

Iuri Brandi – Tem um exemplo bom, na mina N4WS, do Complexo de Carajás. O Dytiscidae, um besouro aquático milimétrico: ficamos quatro anos para mostrar que ele não é restrito a poucas cavernas, mas que tem uma distribuição mais ampla e tudo acompanhado de perto pelo órgão ambiental. E nesse meio tempo todo mundo já conhecia o besouro. Aí um dia eu ouvi um operador de caminhão falando alto: “Não pode ir lá não porque tem Dytiscidae!” A grosso modo, é assim que funciona nossa parceria com o ITV DS. São casos práticos, concretos, com resultados verdadeiros, publicados, que trazem muita segurança para os órgãos licenciadores de que a pesquisa promove mesmo uma evolução sustentável. Para a mineração é importante. E nesse levantamento de dados aparecem coisas muito interessantes.

Dá um exemplo de alguma dessas coisas interessantes que te afetaram?

Iuri Brandi – Eu vibro muito com todos esses processos, temos um banco de dados que é nosso tesouro maior para a modelagem. Ali tem tudo o que nós coletamos ao longo desses anos todos – a Espeleologia surgiu dentro da Vale em 2008, 2010. No banco de dados tem o momento em que começamos a retratar o funcionamento dessas cavernas, e como fazer a gestão com a influência da mineração. E nesses levantamentos de dados descobrimos, por exemplo, que as cavernas se mexem até mesmo com os trovões e raios que caem. Quem iria colocar uma questão dessas sem ter um dado na mão? As cavernas também se mexem e se movimentam com as variações climáticas. Quando chove muito elas se expandem, na seca elas encolhem.  E agora é importante saber, nesse contexto, como os bichos se comportam nos canalículos subterrâneos. São exemplos, nuances das pesquisas que vêm acontecendo ao longo dos anos. Com isso, temos contribuído muito para o conhecimento do tema como um todo. 

Entrevista/Leonardo Trevelin, pesquisador do ITV DS

Como foi construída a parceria entre a Vale e o ITV DS com relação à fauna de cavidades?

Leonardo Trevelin – O ITV DS é organizado em grupos, e eu faço parte do grupo que visa ao estudo da biodiversidade com várias perspectivas. Por conta disso, em 2015 a Vale pediu nosso auxílio e passamos a ter projetos em parceria com alguns analistas do setor de Espeleologia, ligados à questão de licenciamento ambiental. A legislação gera demandas para empresas que têm intenção de empreender em ambientes que serão impactados de alguma forma. Criou-se então um conjunto de projetos para esse universo de subterrâneos e cavidades naturais e passamos a ter um Programa de Pesquisa nesse sentido. O ITV DS tenta compreender o ecossistema de cavernas para que a tomada de decisão – sobre impactar ou não aquele ambiente – passe a embutir esse conhecimento no planejamento da empresa.

Qual a linha de pesquisa seguida pelo ITV DS para o estudo das cavernas que pode ser usado para o planejamento da empresa?

Leonardo Trevelin – As cavernas são uma definição que não existe para os bichos que vivem dentro dos sistemas subterrâneos, elas são parte do ecossistema deles, são a manifestação desse ambiente subterrâneo que pode ser acessada por nós. Muitas vezes elas estão conectadas debaixo da terra. Uma das linhas de pesquisa do ITV DS é tentar descobrir se as cavernas de Carajás funcionam dessa maneira. Ao mesmo tempo, as cavernas são um sistema que prestam serviço ao ecossistema em seu pleno funcionamento, ou seja, não se pode pensar nelas de maneira fragmentada. Elas têm que ter os organismos e os microorganismos que vivem ali dentro e, muitas vezes, ali é o único local que eles têm para viver. Os troglóbios são o modelo mais antigo, uma fauna que está ali há muito tempo. Podemos pensar, portanto, sob o ponto de vista de conservação e sob o ponto de vista da funcionalidade, para descobrir o que tem nesses locais em termos de fauna e de que maneira lidar com isso no sentido de atenção à biodiversidade.

Os estudos feitos pelo ITV DS embasam o compromisso da Vale, que é de entender melhor os ambientes onde ela exerce sua atividade econômica?

Leonardo Trevelin – Sim. Nosso papel no ITV DS é prover esse tipo de suporte. No caso dos ecossistemas subterrâneos é muito ilustrativo, porque caminha junto com a legislação. As cavernas passaram a ser mencionadas pela legislação brasileira como algo que precisa ser preservado só a partir da década de 90. E foi quando também começaram a acontecer algumas situações de conflito, porque existem sobreposições entre alguns ambientes subterrâneos e algumas atividades econômicas. As jazidas minerais e as cavernas, por exemplo, existem de maneira agregada. Em 2008, um novo decreto tentou criar bases para se priorizar as cavernas e foi quando começamos a conhecer melhor esse mundo subterrâneo.

O que o processo de licenciamento exige das empresas no caso das cavernas?

Leonardo Trevelin – É exigido que elas conheçam esses ambientes subterrâneos para classificar as cavernas e, assim, saber se elas podem ou não ser impactadas. Existem cavernas de baixa, de média, de alta e de máxima relevância. A partir daí, há uma série de regras de compensação. Estamos numa fase de trazer solidez científica para esse discurso e o ITV DS tem uma parte muito importante nesse processo.

Entrevista/Xavier Prous, biólogo, colaborador e pesquisador do setor de Espeleologia da Vale

Qual a sua contribuição, como biólogo, para o setor de Espeleologia da Vale, e como é a parceria com o ITV DS?

Xavier Prous – Trabalho há cerca de dozes anos com o Iuri Brandi no setor, e desde o início fomos percebendo que não era só uma questão técnica. Precisaríamos extrapolar e aprofundar nossas pesquisas sobre o que há no mundo subterrâneo, das cavernas, a fim de fazer a entrega para os órgãos ambientais. E encontramos no ITV DS atores que tiveram curiosidade sobre a Espeleologia, identificando ali uma abertura para desenvolver um conhecimento que ainda é inicial no Brasil.  Precisamos entender, cada vez mais, o impacto no licenciamento.

Como é possível fazer a compensação da supressão de uma caverna?

Xavier Prous – Para fazer a compensação é preciso, justamente, conhecer muito bem o ambiente, não só daquela caverna que se pretende suprimir como das outras que estão no mesmo ambiente. Geralmente uma caverna é compensada com outra, com duas ou mais. Assim, precisamos saber ao certo a riqueza que existe dentro de uma para conseguir valorar o que precisa ser compensado na outra. E, dessa forma, trazemos um ganho duplo para a sociedade, ao liberar uma área para ter recursos econômico ao mesmo tempo que é garantida a preservação integral da biodiversidade existente ali.

O conhecimento, no caso, favorece a preservação?

Xavier Prous – Sim. E isso é uma das grandes coisas que aconteceu nesses últimos anos. O conhecimento permite atuar e executar as operações econômicas, garantindo a preservação dos ecossistemas subterrâneos. A quantidade de estudos gerados e aplicados vem permitindo que se aprimore a operação sem destruir a cavidade, seu ambiente subterrâneo, as espécies que estão lá dentro.

Na prática, como isso acontece?

Xavier Prous – Posso dar o exemplo de mudança na forma de fazer o próprio desmonte de rochas, com detonações de minas que não geram vibrações. Ou, até onde uma mina pode ir sem gerar impacto na bacia hídrica da caverna, garantindo a sustentabilidade do clima daquela cavidade. Ou ainda, até onde a mina pode ir garantindo o meio necessário para que as espécies de morcego possam se alimentar e levar o alimento pra dentro da caverna. Tudo isso é resultado de pesquisas desenvolvidas ao longo de dez, doze anos, e que já estão em prática na rotina operacional da empresa.

Mesmo sendo diminutos, os bichos das cavernas têm importância para a biodiversidade?

Xavier Prous – Sim. Não temos como valorar as espécies de forma isolada na paisagem porque toda espécie faz parte do ecossistema. Cada uma delas, por mais milimétrica, tem sua participação no funcionamento da paisagem. Por isso precisamos respeitar e garantir a permanência de todas elas. Esse é o desafio das cavernas, pois é um mundo ainda desconhecido da sociedade. Por isso é que sempre aparece um troglóbio que desafia o licenciamento e a forma que tem que ser feita para garantir que aquela espécie continue existindo.

Há uma estimativa de quantos troglóbios existem?

Xavier Prous – No Brasil existem mais de 130 espécies descritas, catalogadas, e mais de três centenas que ainda não estão descritas. Por isso é que Espeleologia e ITV estão investindo para organizar esses estudos. Temos promovido editais para fomentar a formação de especialistas em cada um dos grupos de troglóbios e a estrutura de coleções científicas. Promover o conhecimento faz com que se tenha bases melhores para promover o licenciamento.

Entrevista/Santelmo Vasconcelos, geneticista, pesquisador do ITV DS, especialista em genômica dos troglóbios

O que é genômica dos troglóbios?

Santelmo Vasconcelos – É o estudo genético completo dos bichos que vivem nas cavernas. No caso do nosso estudo, das cavernas de Carajás, precisamos levar em conta que essas cavernas são diferentes. Enquanto a maior parte das cavernas são de formação de calcário, as cavernas de Carajás têm uma formação geológica diferente, ferrífera, o que significa que vai ter uma fauna diferente associada a ela, além de diferente do que se encontra fora das cavernas.

Qual a diferença entre as cavernas de ferrífero e as de calcário?

Santelmo Vasconcelos – Basicamente a composição mineral delas. E, com relação à fauna, é preciso levar em conta que para conseguir sobreviver num ambiente muito rico em ferro, que é um metal pesado e tóxico em altas concentrações para a maioria dos organismos, há uma exigência de adaptação para os organismos ficarem lá. O nosso objetivo, do ITV DS, é buscar os   bichos que são mais raros, ou seja, que são associados especificamente com esse tipo de caverna, e fazer o levantamento deles. Quantas espécies? Que tipos de cavernas? Tudo isso está associado com os estudos que a gente faz. Atualmente temos três ou quatro projetos no Instituto relacionados à genômica de cavidades, e o principal se chama “Diversidade biológica em cavernas por meio de metagenômica ambiental”.

É possível associar a preservação dessa biodiversidade com a mineração?

Santelmo Vasconcelos – Sim. Primeiro, para começar a produzir é preciso saber o que tem na caverna que será impactada ou não. É preciso assegurar quais são as principais cavernas que esses bichos habitam e se elas são, realmente, a fonte dessa biodiversidade. Com isso, e garantindo que a diversidade genética será preservada, vamos conseguir, ao longo do tempo, e por mais que tenha alterações ambientais que estejam associadas ou não à pressão antrópica, que o bicho seja adaptado o suficiente para continuar sobrevivendo lá. Sabemos que para se manter este potencial adaptativo é preciso saber qual a variação entre genomas das espécies que são aparentadas. Cada indivíduo tem uma variação genética intrínseca a ele, e é importante conhecer essa variação para saber se aquele organismo vai se adaptar ou não a uma alteração no ambiente.

Quais os principais bichos que são a fonte desse estudo? Para o senso comum, quando se ouve falar em caverna, o bicho que vem à cabeça é morcego.

Santelmo Vasconcelos – O morcego é um bicho bandeira, ele poliniza, come pragas. Mas a maior parte do tempo eu tenho trabalhado com outros bichos. Já trabalhamos muito com invertebrados – alguns insetos, e até crustáceos que existem nas cavernas. Um grupo que está com a importância alta é o besouro. Há os besouros aquáticos, muito difíceis de estudar porque são muito pequenos. Conseguimos descobrir um número grande de espécies novas desses besouros em relação às cavernas que estudamos.

Os morcegos saem e voltam das cavernas. Há outros bichos que fazem este movimento?

Santelmo Vasconcelos – Sim. Há tanto os bichos que são exclusivos de cavernas, nunca saem de lá, quanto bichos que ficam transitando e fazem o fluxo energético da caverna. Morcegos, grilos, saem, se alimentam, voltam e defecam. As fezes deles são fonte energética para outros bichos.

Os bichos das cavernas, aqueles que ficam lá dentro o tempo todo, têm olhos?

Santelmo Vasconcelos – Alguns têm diferenças, outros não. Até porque, produzir um olho no seu corpo durante a vida é um gasto energético que, para eles, pode ser desnecessário. Eles desenvolvem órgãos sensoriais diferentes. Têm antenas maiores, patas mais extensas ou cerdas para conseguir apalpar o ambiente onde estão.